A urgência da educação em direitos humanos para as sociedades

Por Isra Campos,
Ativista pelos direitos humanos, gestor e educador social

 

Sessão de EDH com Isra.

 

A educação em direitos humanos (EDH) é cada vez mais urgente. Segundo o estudo da Amnistia Internacional (AI), pelo menos 3500 defensores dos Direitos Humanos foram mortos desde o ano da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em 1948. Lamentavelmente, defensores dos direitos humanos (DH’s) continuam a serem mortos em diversos países do mundo. No presente ano, Marielle Franco, uma ativista brasileira pelos DH’s e que estava no cargo de vereadora da cidade do Rio de Janeiro, foi executada. Enquanto escrevo esse artigo, o crime ainda não foi solucionado. A vida, maior bem que qualquer pessoa pode ter, é o que está em jogo para milhões de pessoas também sujeitas às guerras, genocídios, desalojamentos forçados, racismo, entre outras violações sistemáticas dos DH’s. Apesar da educação em direitos humanos passar por essa urgência, podemos nos perguntar: por que muitas pessoas cruzam os braços e não agem pelos direitos humanos?

A resposta para essa lacuna passa e muito pela educação. A educação em direitos humanos é um processo básico para que conheçamos nossos próprios direitos e principalmente nos importemos mais sobre o outro, que é diferente, mas também é igual. Se atentarmos para o que diz o Programa Mundial e Educação em Direitos Humanos (PMDH, 2005, p.25), veremos que a educação objetiva “exercitar o respeito, a tolerância, a promoção e a valorização das diversidades(…)”. Iniciativas que vão desde o combate ao bullying escolar à eliminação do racismo em Portugal são exemplos de ações que a educação em direitos humanos visa para tornar a sociedade em um local de mais conhecimento e com mais respeito.

O trabalho, no entanto, é longo e árduo. Muitas pedras dificultam nossa caminhada. Um exemplo de um obstáculo atual são as fake news. Quando lemos nas redes sociais que “direitos humanos são para bandidos” e que “quem trabalha pelos direitos humanos, despreza os policiais mortos”, estamos diante de mentiras que por vezes demoram um considerável tempo para serem desenraizadas.  Os direitos humanos são para trabalhadoras, pais, jovens, crianças, ou seja, todos os segmentos sociais: todas as pessoas!

Em uma das sessões que realizei em educação em direitos humanos, em específico pela Rede de Ação Jovem – ReAJ da Amnistia Internacional Portugal, um auditório com mais de cem adolescentes participava ativamente com perguntas na altura em que chegamos a uma temática  sensível a muitos: os refugiados. Muitos dos presentes tinham dúvidas sobre as pessoas diversas que chegavam a Europa, quem eram aquelas pessoas, o que elas queriam em Portugal, se eram terroristas, se iriam “roubar” o trabalho deles no futuro, entre outras questões. No decorrer da sessão, uma estudante levanta a mão e lê uma notícia sobre um refugiado que assassinou diversas pessoas. No mesmo momento, uma colega reconheceu que era uma  fake news. Acerca das dúvidas, cada pergunta foi respondida com propostas de reflexões e dados precisos para difundir fatos e desconstruir mentiras.

 

Sessão de EDH com Isra e o “Lobo Mau”.

 

Em outra sessão para crianças do quinto ano (que possuem cerca de 10 anos em média), tive grandes experiências de enriquecimento como educador. Uma criança com um tipo de transtorno participava ativamente, respondendo às perguntas do “lobo bom” sobre os direitos humanos. Outra criança se incomodava particularmente mais com o fato de que muitas pessoas são presas injustamente no mundo, e que essas pessoas eram pais ou mães. Outras duas meninas ficaram interessadas nos direitos das crianças, pois, segundo elas, o direito a ter um lar é um dos direitos mais importantes para as crianças. Após a sessão, soube da professora que boa parte das crianças que mais participaram, viviam situações familiares ou de vida extremas, e que, no caso do estudante com transtorno que participou ativamente, ele só participa quando o assunto chama sua atenção de forma contundente, ou seja, além das temáticas terem captado a atenção da criança, a abordagem pedagógica se mostra muito importante para o alcance dos resultados propostos pela edh para o público infantil e jovem.

Uma outra experiência marcante, foi a sessão de EDH especial sobre o “Dia Internacional da Lembrança do Holocausto”. Foi dialogado com os estudantes, a preocupação de muitos segmentos sociais com o fato da presença de alguns elementos existentes, na antecedência do holocausto, se parecem com os mesmos elementos que existem hoje, tais como a ampla disseminação de notícias falsas, vangloriação de governos violentos, relativização da tortura, propagação do ódio, genocídios, entre outras ocorrências…

A luta por um mundo melhor é constante e para que essa e outras histórias que violam os  nossos direitos não se repitam é imprescindível falar sobre os direitos universais que cada um de nós possui. Importante também relacionar o ensino dos direitos humanos com o que vem sendo estudado em salas de aula pelos estudantes, com ferramentas que eles utilizam frequentemente como a internet e os aplicativos, para que o diálogo seja ainda mais eficaz.

Termino esse breve texto, convidando a todos a agirem pelos direitos humanos, especialmente nós, jovens. Seja para ser um educador, um ativista que planea e participa de protestos, recolha de assinaturas para pressionar governos, entre outras ações fundamentais para um mundo mais justo. Junta-te já à ReAJ – Rede de Ação Jovem, envia um email para reaj.aip@gmail.com e nós responderemos assim que possível.